“O silêncio de Maria!”

O silêncio resume Maria, sua vida foi quietude e paz, não só uma paz acomodada, mas uma autêntica paz inquieta. Ela estava preparada para ouvir a voz do Criador, por isso seu eco foi tão perfeito. Antes de tudo, é preciso reconhecer que Maria fez de fato a experiência do silêncio. Durante toda a sua vida esteve atenta às manifestações da voz de Deus, nas coisas mais simples. Lucas nos fala que ela conservava no seu coração tudo o que atravessava a sua história².

A vida de Maria se parece com uma espiral crescente, na qual acontece um movimento contínuo e progressivo de ouvir, meditar e frutificar. Assim, ela vai se movimentando e aprendendo a crescer na fé, caminha e aprende um pouco mais. Discretamente ela partilha suas descobertas, reelabora-as em um processo contínuo. Assim, a peregrina na fé vai se transformando em discípula de seu Filho, Jesus de Nazaré. Na vida de Maria há muitos e eloquentes silêncios, desses que falam mais que mil discursos:

O primeiro deles é aquele que se refere à vida antes da Anunciação. Quem era Maria? Os Evangelhos nada falam sobre o passado de Maria. Omitem o nome de seus pais e não nos dão qualquer informação. O evangelista Lucas revela que ela era Imaculada, cheia da graça de Deus, virgem prometida a José. E só. Antes disso, um grande e misterioso silêncio, que nos deixa curiosos e sem respostas. Somente Maria sabia quando seria a plenitude dos tempos, o kairós em que a Palavra se haveria de transformar. O segundo silêncio de Maria sobre o mistério da encarnação gerou a dúvida de José, que depois seria visitado em sonhos pelo anjo.

O terceiro silêncio de Maria poderíamos buscá-lo em sua vida oculta, no lar de Nazaré. Desde a gruta de Belém, ao exílio no Egito e ao retorno à Galileia, a mãe de Jesus guardou silencioso recolhimento em seu coração. Ela, até o início da vida pública, não diria nada, a ninguém, a respeito de seu Filho. Ela não procurava, como nós, as glórias do mundo que os homens dão às pessoas importantes. Ela apenas curtiu os grandes e fecundos silêncios de Deus. Um silêncio que nós hoje não sabemos fazer…

Na vida pública de Jesus encontramos o quarto silêncio de Maria. Mesmo acompanhando o filho em tantas atividades missionárias, enquanto Jesus evangelizava com discursos, denúncias, curas e grandes sinais, ela o fazia de outro modo. Com oração, presença e silêncio. Nesse período, ela só falou em Caná, lugar privilegiado do primeiro milagre. Primeiro disse ao Filho que o vinho faltara naquela festa.  Depois, aos serventes (e continua dizendo a nós), “façam tudo que ele disser a vocês”.

Maria esteve presente e silenciosa, à frente na cruz. De pé e calada. O quinto e expressivo silêncio de Maria, que coroa sua vida terrena, aconteceu depois da ascensão de Jesus. Depois da subida do Filho aos céus, cai um silêncio profundo sobre a vida de Maria. Onde morou depois? Quantos anos mais ainda viveu? Na caminhada da Igreja que nasce, sente-se a presença de Maria, sente-se um silêncio, uma animação. No silêncio de Maria a Igreja aprende a caminhar na direção do Reino.

Do Antigo Testamento, Maria tirou as lições silenciosas de aceitação à soberana vontade de Javé, “Por acaso a argila pergunta ao oleiro: O que estás fazendo?”. Sentindo-se barro nas mãos do artista, Maria acolhe, no silêncio da fé e da humildade, sua missão. Em suas pregações, Jesus haveria, posteriormente, de exaltar essa silenciosa humildade: Quem se humilha será exaltado. Nos livros sapienciais do Antigo Testamento, encontramos o silêncio como figura de algo eficaz: Enquanto um silêncio profundo envolvia todas as coisas, e a noite estava pela metade, a tua Palavra, todo-poderosa veio do alto do céu, do seu trono real, e lançou-se sobre a terra.

Jesus, há quem diga, aprendeu o cerne das bem-aventuranças no silêncio do seio de Maria, sua mãe. Nesse silêncio expressivo Cristo foi gerado. Ali “o verbo se fez carne”, a Palavra tornou-se homem, a salvação começou a tomar corpo, a Igreja surgiu. Silêncio pode significar uma porção de coisas. No caso de Maria, não é passividade, mas introspecção; não é apatia, mas revolucionária e transformante atividade. É seiva humilde alimentando um majestoso cedro. O silêncio de Maria não é estéril ou inócuo. Pelo contrário, ele é rico em revelações, prodigioso em encontros. É difícil tirar lições do silêncio. Em geral o que comove, convence e efetua mudanças são as palavras, os discursos, os debates. No caso de Maria, mãe de Jesus, dá-se o inverso. Ela é a mãe silenciosa que ama, crê, sofre, espera, e por isso seu exemplo de silêncio traz consigo uma carga evangelizadora superior a milhares de palavras.

Márcia Terezinha Cesar Miné Geraldo

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