“A experiência do Tabor desvela nossa imagem verdadeira”.

 

“Transfigurar-se é ascender a ladeira íngreme do Tabor até mergulhar a cabeça na nuvem do não saber. É um aspirar sem querer, acreditar sem ver, esperar sem ter, dar-se sem possuir. É reduzir todos os pontos cardeais do ego ao seu núcleo central: o amor” (Frei Betto).

 

Todos os grandes personagens bíblicos fizeram sua experiência de Montanha (lugar de intimidade com Deus; de escuta e discernimento; lugar onde receberam uma “missão” e foram abençoados). Do alto da Montanha esta bênção vai se espalhando e atingindo a todos; experiência pessoal de alcance universal. Também Jesus, o homem dos “vales” (lugar do compromisso, serviço…) sabia reservar momentos de Montanha (comunhão e escuta do Pai); ali Ele busca sentido e força para a sua missão. No Monte Tabor Ele deixa “transparecer” seu coração; diante do olhar assombrado dos discípulos Ele “desvela” aquilo que a visão superficial não capta: Ele é todo compaixão, bondade, acolhida, amor… Jesus de Nazaré foi o homem que não pôs obstáculos ao Mistério para que se expressasse n’Ele; Ele foi pura transparência da Fonte originante, revelação do Rosto do Pai. Como seguidores de Jesus, devemos saber criar em nossas vidas, espaço e momentos de Montanha (plenitude, silêncio, interioridade, escuta, discernimento); isso possibilita uma prática eficaz, um compromisso duradouro, uma decisão enraizada, uma presença transformadora nos “vale da vida”. Subir à Montanha nos possibilita ler os horizontes e perceber se estamos caminhando na direção certa; isso implica tomar distância do ritmo diário, descobrir novos caminhos e novas decisões…

A Montanha nos faz perceber (a partir do alto) certos aspectos do vale que passam desapercebidos. Permanecer no vale, sem ter momentos de Montanha, é fechar-se, cair na rotina, não perceber novos horizontes, não abrir a cabeça e o coração, não ampliar a visão das coisas, da realidade, da história… Nossa ação no vale deve ser fruto do discernimento acolhido na Montanha. A Montanha nos devolve ao vale com outra visão, outro dinamismo; a Montanha ilumina, dá sentido e sabor à nossa vida no vale. O vale é o lugar do compromisso, do trabalho, da construção… mas iluminado pela experiência da Montanha. Todo gesto no vale tem plenitude, tem ressonâncias… a partir da Montanha. A Montanha também nos revela que Deus está “trabalhando” no vale e nos impulsiona a “trabalhar” com Ele na mesma direção. A Montanha não é lugar só do encontro íntimo com o Senhor, mas também lugar do encontro com o melhor de nós mesmos, nosso ser essencial; no silêncio do monte poderemos perceber quem somos nós. Por isso a transfiguração é também descoberta do “eu”, da própria realidade pessoal, do Mistério que habita em nós. É nessa manifestação divina que “descobrimos a nós mesmos”. Começamos a descobrir o nosso ser (único, original, sagrado…) quando “mergulhamos” no misterioso relacionamento com Deus e quando permitimos que o “mistério experimentado” se torne fonte de nossa identidade. Nossa vocação é “transfigurar-nos”, superar nossa própria figura, ir além de nossa aparência para captar nossa originalidade e riqueza interior, nosso “eu original”. Essa é a nossa verdadeira identidade; em certo sentido, é como se recordássemos quem somos e, ao recordá-lo, iniciamos um caminho de volta à casa (as “três tendas”). “Voltar à casa” é deixar transparecer aquilo que é mais nobre em nós; é reconhecer que somos Plenitude que transborda, Fonte inesgotável de sonhos, criatividade, inspirações…Cair na conta de nossa condição de “filhos/as amados/as” equivale a reconhecer-nos como transfigurados. E é isso mesmo que se pode afirmar de cada ser humano: cada um de nós é “filho amado”, nascido daquela mesma Fonte e, ao mesmo tempo, transparência dela.

Todo ser humano possui dentro de si uma profundidade que é o seu mistério íntimo e pessoal; trata-se do “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside o lado mais positivo da pessoa, que só uma experiência de transfiguração é capaz de desvelar aqui, onde a pessoa encontra a sua identidade pessoal; trata-se do coração, da dimensão mais verdadeira de si, da sede das decisões vitais, lugar das riquezas pessoais, onde ela vive o melhor de si mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, de onde partem as suas aspirações e desejos fundamentais, onde percebe as dimensões do Absoluto e do Infinito da sua vida. Transfigurar é deixar transparecer toda essa riqueza interior. E isso não é fácil; normalmente cobrimos nossa verdade com máscaras ou com um papel que interpretamos. Vivemos uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação (ativismo, rotina, angústias, trabalho sem sentido; mundo fechado, sem horizontes, sem direção…). O cotidiano faz-se rotineiro, convencional e, não raro, carregado de desencanto. Frequentemente vivemos o cotidiano com o anonimato que ele envolve; e isso nos desfigura, desumanizando-nos. Por debaixo somos… como realmente somos. Mas o ocultamos por medo de expor-nos aos outros, de não sermos compreendidos, de não valermos nada…; frequentemente preferimos ignorar partes de nós mesmos, apagar da consciência episódios pessoais; nosso “eu” se dissocia e se desintegra.

No entanto, a experiência do amor incondicional de Deus pode derrubar grossos muros, arrancar nossas máscaras, revelar-nos quanto valemos aos Seus olhos e dar-nos uma nova liberdade para sermos nós mesmos. Na Montanha somos olhados por Ele em profundidade e esse olhar revela nossa verdade mais original. Trata-se de um olhar de aceitação, de amor, que nos faz descobrir o quanto valemos, que nos chama à vida; que nos livra do mundo de sombras, medos e inseguranças; que nos faz descobrir o gosto de viver sem máscaras, como alguém respirando ar puro. Nos caminhos das Montanhas, sentimo-nos livres de horários fixos, apegos, modas, propagandas, violências, normoses, incompreensões e intolerâncias, e aprendemos o serviço e a entrega incondicional aos outros. É a partir das Montanhas que devemos colocar as bases firmes para edificar uma cidade fraterna e livre. Na Montanha, nunca se conjugam os verbos: escravizar, desprezar, irritar, estafar, odiar, tiranizar, encadear, encarcerar, impor, fazer calar, humilhar, não aceitar nem compartilhar… Acima, sobre os cumes, brilha sempre o Sol, que queima os farisaísmos, egoísmos, violências e injustiças, que costumam ser produtos da cidade. Subir uma Montanha exige força de vontade e esquecer-se da comodidade, droga atual que tanto debilita a colaboração, a solidariedade, a compreensão e a entrega, pedras angulares de toda sociedade livre. A experiência da Montanha não é para permanecermos aí, isolados e acomodados, mas para “descer” à vida cotidiana, com todos os seus desafios, e viver ali o que vimos, a partir de uma atitude de bondade, compaixão e serviço.

Texto bíblico: Mc. 9,2-10

Na oração: sentir como Deus nos conhece e nos ama como somos; quê máscaras você usa habitualmente? Quê papéis você representa? Como você se sente quando atua com essas máscaras? A oração faz emergir à consciência uma nova imagem de nós mesmos e indica com o dedo uma área  da nossa personalidade que necessita ser transfigurada com criatividade; ela  promove um desenvolvimento criativo, eliminando a distancia entre a imagem real e as falsas imagens que habitam o nosso interior. Através do encontro com o Senhor, no silêncio da montanha, a oração revela quem somos realmente, e amplia nossa vida para além de nossas pequenas fronteiras. Com efeito, orar é aproximar-nos da “verdade que nos faz livres”; livres para sermos “nós mesmos”, chegar a ser aquilo para o qual somos chamados a ser.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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